A seguir, um comentário sobre o livro:
Há uma tendência bastante nova, porém muito forte, em se dar maior importância à vida privada, à realização pessoal, não em detrimento da carreira, mas em conciliação e comunhão com a vida em família.
Se por um lado a revolução feminina e entrada das mulheres no mercado de trabalho foi uma evolução, causou também um problema, á medida que não foram reconhecidas as novas necessidades das mulheres e de suas famílias.
A sociedade conseguiu admitir as novas possibilidades de mulheres construindo carreiras promissoras, brilhantes e prósperas, mas ninguém, ou quase ninguém lembrou o fato que ao assumir novas atribuições, as mulheres precisariam ter com quem dividir suas antigas tarefas de modo a não se sobrecarregarem.
Muitas vezes o trabalho fora de casa somente é permitido às mulheres, desde que não afete o cumprimento de suas tarefas domésticas, e essa dupla jornada torna-se rapidamente exaustiva. O cuidado com as crianças e os idosos é ainda hoje quase que exclusivamente delegado as mulheres, e quando o homem se dispõe a uma divisão mais ampla e justa das obrigações e afazeres domésticos, fazendo concessões e ajustes em sua carreira para atender às demandas da vida privada é tomado como mau profissional.
A divisão igualitária do trabalho doméstico é ainda muito rara, e causa estranhamento nas pessoas, estranhamento este que só pode ser maior quando é o homem que assume sozinho as atribuições domesticas e “de mãe“, como no caso do RECRUTA SUÍÇO.
A situação que se iniciou de forma quase anedótica, quando o recruta apresentou-se ao serviço militar com um bebê nos braços, levantou uma polêmica discussão sobre a divisão do trabalho, sobre quanto é real a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres na prática.
Reivindicar mudanças na forma como a sociedade administra o tempo, deve ser uma bandeira de todos, homens e mulheres, de modo a termos mais tempo para a realização pessoal, mais tempo para o amor, mais tempo para as pequenas alegrias do quotidiano, que muitas vezes passam despercebidas em meio a agendas sempre atribuladas, com mil compromissos importantíssimos e inadiáveis. É preciso lembrar que nosso único compromisso inadiável é ser feliz hoje, o tempo perdido em trabalho sobre trabalho, deixando de ver os primeiros passos do filho, não se permitindo fazer aquele curso ou aquela viagem, jamais poderá ser recuperado.
Precisamos trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Se o que nos move é o desejo de conquistar uma vida mais confortável, tranqüila e próspera, uma qualidade de vida elevada, trabalhar desesperadamente, sem descanso, representa um contra-senso.
Períodos de ócio, de lazer, são necessários à manutenção do bem-estar físico e mental do ser humano. Não estou afirmando que o trabalho não pode ser fonte de satisfação e realização pessoal, muito pelo contrario, o fato é que há muitos outros fatores envolvidos, como a vida em família, a formação acadêmica, o lazer, e outros mais, decisivos na formação de um indivíduo saudável e feliz.
A maneira como cada nação trata esta problemática, influencia dramaticamente a qualidade de vida de seu povo, e até a configuração das famílias.
Nos Estados Unidos, por exemplo, as empresas vêem a família como a grande vilã, consumidora de tempo da força de trabalho. O Estado por sua vez assume a educação e o cuidado com as crianças como uma atribuição quase que exclusivamente sua, consolidando a idéia no mínimo equivocada de que a família é uma ameaça ao avanço da economia.
A França, tentou atribuir ao trabalho domestico executado pelas mulheres um valor monetário, visão que tão somente acentua o problema, visto que o ideal não é transformar a vida em família num setor da economia, e sim dar mais tempo aos indivíduos para que vivam estes momentos de maneira plena e tranqüila.`
Os países com as melhores abordagens são Suécia e Holanda, bem como a Itália, que conseguiram equilibrar os benefícios oferecidos aos trabalhadores, homens e mulheres, na condição de pais e cônjuges, com os interesses econômicos, garantindo o bem-estar de todos, a união das famílias e a igualdade de oportunidades profissionais para homens e mulheres.
Tudo começou na Suécia, onde o debate esta em pauta há mais de 20 anos, que instituiu uma licença remunerada equivalente a 90% do salário dos empregados, que pode ser requerida tanto pelo pai como pela mãe, em tempo integral ou parcial, ate que a criança complete 8 anos, sendo um beneficio por família. Alem disso, mãe e pai têm direito a 60 faltas anuais em caso de doença dos filhos.
Tais atitudes revelam a forte preocupação e compreensão da sociedade sueca a cerca dos conflitos de tempo a que homens e mulheres se submetem, na tentativa de oferecer o melhor para suas famílias e ter um futuro tranqüilo.
Políticas públicas de apoio a primeira infância, como a lei que obriga todos os municípios suecos a oferecer locais de acolhida para crianças a partir de um ano de idade, são um incentivo, um impulso a realização profissional das mulheres, colocando-as finalmente em igualdade com os homens no que toca ao arranjo familiar, oportunidades de emprego, etc..
Neste caso, as maiores beneficiadas não foram apenas as mulheres, mas a família, como instituição, que tem a chance de recuperar séculos de atraso na interação entre pais e filhos, quando os homens podem interar-se e participar mais da formação dos filhos, participar mais ativamente da criação e da educação deles, reatando e fortalecendo laços que há muito estavam abalados.
Outro caso feliz de revisão de pré-conceitos, aconteceu na Holanda, primeiro país a estudar e levar em conta as aspirações masculinas com relação a necessidade de mudanças da divisão de tarefas com base no sexo, levando a uma reflexão importantíssima:
Não somente as mulheres precisam recuperar-se de um acentuado desnível profissional com relação aos homens, como os homens carecem da recuperação de um atraso de séculos na sua implicação na vida domestica.
A Holanda conseguiu mostrar assim que o problema da desigualdade entre os sexos é um problema de todos, não apenas das mulheres, e que minimizar essas diferenças também é benéfico pára todos, homens, mulheres, seus filhos e toda a estrutura familiar que os cerca.
Na Itália, nasceu um movimento da iniciativa popular chamado ``As mulheres mudam o tempo``, que deu inicio a toda uma dinâmica social, gerando debates mais abrangentes sobre o assunto, o que proporcionou a inserção do planejamento de tempo dos trabalhadores, homens e mulheres, no foco do planejamento de políticas publicas, benefícios diversos, etc..
O primeiro projeto de experimentação política em reengenharia do tempo colocado em pratica na Itália foi chamado “TEMPO DAS CIDADES”, e visava a conciliação dos tempos reservados a vida privada, trabalho e formação.
No tempo urbano ou tempo das cidades, o trabalho já não ocupa a posição central, não é ele que rege as vidas dos cidadãos, e o que vigora hoje são os tempos sociais.
Os tempos sociais integram e aproximam os tempos de trabalho, de formação, de lazer e vida efetiva, evitando soluções voltadas exclusivamente as solicitações femininas, e pensando de modo global, sobre as necessidades das famílias, abordando estas questões como problemas do trabalhador, seja homem ou mulher, e que os principais afetados são as famílias, os filhos, e a vida conjugal.
As discussões iniciadas em movimentos de mulheres, tornaram possíveis mudanças e adaptações no ritmo das cidades que beneficiaram a todos. Em Milão, a elaboração de um novo plano diretor absorveu informacoes as mais diversas, como serviços urbanos, atividades empregatícias dos habitantes, geografia local, clima, tradições culturais, rotina familiar, enfim, todo tipo de fator que afete o dia-a-dia da população.
Embora o projeto de lei não tenha sido aprovado de imediato, serviu como base para uma nova lei de reforma da administração publica, nos anos 1990.
Através de negociações complexas, as italianas conseguiram transformar drasticamente a abordagem da administração publica as necessidades da população com relação a funcionamento de serviços públicos, transporte, comercio, escolas, serviços de saúde, atendimento as crianças na primeira infância, com creches e locais de acolhida, e principalmente uma revisão dos benefícios oferecidos as mães e pais, para que possam passar mais tempo com seus filhos e com suas famílias, como licenças, flexibilização da jornada de trabalho diária e semanal, adaptação da jornada ás necessidades específicas de cada um.
Veja um vídeo do programa Provocações, onde o apresentador Abujamra discute o assunto com a escritora Rosiska. VídeoProgramaProvocações
por Kassia Flores Teixeira
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